O Diário do Leitor: monólogo
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21/02/2016

[Resenha] A Lista

A Lista
Autora: Jennifer Tremblay
Editora: Autêntica
Número de Páginas: 80
Você pode adquiri-lo em: Submarino
Sinopse: “A Narradora se desespera: ‘O que você, Caroline, gosta no fato de ter filhos?’; ‘Gosto da facilidade de se amar os filhos’. Gosto da facilidade de se compreender este texto. Gosto da tradução da Risa. Da poesia da Jennifer. Do ritmo alucinado de sua calma. Batidas à porta. Mais portas. Menos janelas. Mais saídas reais. Apareça lá em casa. Mesmo. Traga seu pijama. Eu acendo a lareira. Eu não tenho lareira. Mas acendo. Também trago no peito as marcas das minhas listas impossíveis. Também preciso parar. Abrir a porta. Pois trago no peito a memória de nossa humanidade possível. Apareça. Agora estou menos enlouquecida. Agora estou aqui, de verdade.” [Clarice Niskier]

A princípio encenada como peça teatral em 2010, A Lista ganhou prêmios de melhor peça da temporada. Depois disso, Jennifer Tremblay transformou seu roteiro em livro, sendo publicado no Brasil pela Autêntica em 2014, ano em que o último livro desta trilogia foi publicado no exterior. São eles: Le Carrousel (2011) e La Délivrance (2014). Por aqui ainda não temos previsão para o lançamento dos demais livros que fazem parte da série.

Com um prefácio escrito por Clarice Niskier, já somos iniciados com uma ambientação das listas que acompanharemos do início ao final do enredo de Jennifer. E percebemos também o quão tocante a obra será.

Não se preocupe. Você vai se comover. Vai se emocionar. Vai pensar nas suas listas. Lembrar do que cumpriu. Do que não cumpriu. Não se torture. Sua memória não foi feita para isso.

Dividido em sete atos – Expiração, Opressão, Dispneia, Síncope, Asfixia, Sufocação e Inspiração – , somos apresentados à uma mãe de família exausta e ressentida. Ela não está no lugar que gostaria, cansada dos filhos e do casamento. Mas a morte de Caroline, uma possível amiga e que levava uma vida parecida – com a exceção de que estava sempre contente e feliz – mexeu com todos seus sentimentos.

Aos poucos, voltamos a acontecimentos que já aconteceram, como se ela própria estivesse refletindo sobre cada ato que cometera desde que se mudaram.

Sempre fugindo dos outros, ela acaba se vendo ainda mais sozinha. E é em um destes momentos que seu marido decide aceitar o convite para a festa de uma das filhas de Caroline. A menina está eufórica por ganhar tantos presentes, que nossa protagonista percebe, inclusive, quando ela está prestes a mentir. E adora isso nela. 

Não posso fugir da paisagem. / Mas posso fugir das pessoas.

Foi nesse momento que percebi o quão doente ela é, até mesmo quando ela decide ir com Caroline ver um filme. Ambas sabem o quanto ficarão tristes após assisti-lo, mas vão mesmo assim. A protagonista não sabe o porque da jovem querer mais filhos e a resposta que ela dá em seguida a surpreende. Realmente, é um amor rápido e fácil o dos filhos. É algo que ela necessita, que supre suas vontades, seus anseios. Mas ao mesmo tempo, ela se sente tão culpada, que não consegue exprimir isso de maneira tão clara em seu monólogo.

Caroline está grávida. A quinta gestação lhe traz medos. Não pode deixar os outros quatro órfãos. E é aí que o tormento de nossa protagonista cai de vez. Daí para o fim fatídico da jovem, ela se sente cada vez mais responsável pela morte prematura de uma mãe de família. Mas o que será que de fato que acontece? Como ela consegue digerir os acontecimentos?

Acho que antes de mais nada, A Lista é um tapa na cara dessa sociedade egocêntrica, que não tem tempo nem para olhar para o próximo, que está a seu lado. Negligenciamos tantos fatos, que na maioria das vezes julgamos como pequenos erros são, na realidade, grandes delitos. Outro ponto bem bacana da narrativa de Jennifer é que ela nos leva a grandes reflexões sobre nosso dia-a-dia. Será que estamos nos tornando A Narradora? As listas dela se parecem tanto com as nossas, que não temos como não nos identificarmos em muitos pontos descritos na obra.

Não é a toa que ela foi tão premiada enquanto peça teatral. Imagino a magnitude e o sofrimento ao assisti-la, pois foi exatamente estes sentimentos que tive ao ler. Quantas narradoras e quantas Carolines existem nessa vida. Quantas sofrem o que elas sofreram. Foi extremamente tocante!

A editora caprichou nesta capa simples, mas que ao mesmo tempo transmite o quão frágil é a árvore da vida. A diagramação interna é bela, fonte ótima para leitura e em cor azul marinho. A capa dura demonstra o cuidado com a edição de um livro que, com certeza, assim como sua peça, também será muito premiado.


Em suma, é um livro para ser degustado da primeira a última lista! 


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