[Resenha] O Álbum

14 dezembro 2015

O Álbum
Autor: Timothy Lewis
Editora: Novo Conceito
Número de Páginas: 240

Sinopse: Para Adam, negociante de objetos usados, a casa de Gabe Alexander é apenas uma propriedade que será esvaziada e vendida pelo maior lance. Entretanto, em meio às prateleiras repletas de relíquias, um álbum antigo atrai sua atenção. Nele há cartões-postais amarelados pelo tempo, escritos ao longo de 60 anos. Intrigado, Adam começa a lê-los: eles estão cheios de frases românticas e delicadas, as provas do amor incondicional entre Gabe e Pearl Alexander.
Gabe cuidava para que um cartão chegasse às mãos de Pearl todas as sextas-feiras. Cada um deles possui não apenas um poema, mas verdades preciosas sobre o cotidiano de um casal que viveu um sonho. A soma de todas essas verdades talvez responda perguntas que Adam se faz há muito tempo.

Ainda que muitas vezes prefira as obras dinâmicas em que tudo acontece o mais direto possível, reconheço que muitos livros necessitam de certa lentidão e, mais do que isso, de uma apreciação maior para que nenhum detalhe se perca em suas nuances. É o caso de O Álbum, livro que demora a chegar ao seu ápice, mas apenas por fazer uma viagem no tempo que explora a intensidade do amor e da paixão.


Timothy Lewis se inspirou nos cartões-postais trocados por seus tios-avôs durante seis décadas e o fato de usar uma referência real e tão familiar na construção de seu enredo certamente contribuiu para que este fosse tão tocante. Outro detalhe que influenciou foi a dedicação de Gabe, que se esforçou durante décadas para enviar um cartão-postal todas as semanas para Pearl, deixando claro que sentia um amor incondicional pela mulher.

Mas a partir do momento em que os cartões-postais deixam de ser apenas um ingrediente a mais do relacionamento entre Gabe e Pearl, passando a influenciar inclusive a vida e rotina de Adam, eles se tornam parte essencial do desenvolvimento de tudo. É como se as mensagens de amor puro e verdadeiro tivessem a missão de mudar a vida de todas as pessoas e conseguisse isso sem muito esforço.

“A manhã fresca e clara / Faz-me lembrar da minha menina. / Passar essa hora com ela, só com ela, / E abraçá-la junto ao meu desejo… / A manhã do nosso amor. (pág. 15)”

Com a certeza de que essa obra é capaz de transformar seus leitores, devo dizer também que cada cena protagonizada pelo casal supracitado é uma surpresa a mais, principalmente quando as situações naturais em livros do gênero são deixadas de lado. Não que seja um constante relato de originalidade; apenas tem de tudo um pouco (diálogos marcantes, empecilhos reais, etc) e a união disso resulta em cenas que ressaltam a relação homem-mulher ao mesmo tempo em que provam a delicadeza que pode estar por trás de cada simples gesto. Aí está o grande diferencial: a valorização do que é simples.

Diria que isso só é possível porque a história se passa em diferentes épocas, ou seja, o que hoje poderia ser considerado banal era completamente natural na década de 20/30. É onde entra o que comentei sobre apreciar para não perder nenhum detalhe. Para compreender as mudanças que serão causadas no futuro é imprescindível ter consciência de como as personagens ditaram os capítulos de suas próprias histórias. Além disso, o cenário e a própria sociedade da época são mais do que meros detalhes.

As três fases de O Álbum são intercaladas ao longo da narrativa, por isso senti a ansiedade de chegar ao desfecho para compreender até que ponto simples cartões-postais poderiam influenciar a vida de terceiros. A verdade é que todos eles possuem um significado muito especial e, conforme são revelados no início de cada capítulo, muitas coisas começam a fazer sentido.

Mesmo preferindo uma narrativa não-linear, nesse caso é compreensível a escolha. Também por isso este não é um drama qualquer. E digo isso sem levar em consideração que Timothy Lewis possui experiência com o teatro, expressão artística que tão bem explora o drama.

“Eu tinha ficado tão acostumado a sentir pena de mim mesmo, e ao conforto paradoxal da dor, que nem sabia mais como levar uma vida normal. Será que eu estava mesmo começando a aceitar o que tinha acontecido ou me forçando a deixar aquilo para trás? De qualquer maneira, graças a Huck e Gabe, eu sabia que encontraria coragem para seguir em frente” (pág. 231).

Biografia
Ricardo Biazotto nasceu em Espírito Santo do Pinhal, São Paulo, em 1993. Participou de várias coletâneas literárias, entre elas King Edgar Hotel, Marcas Eternas e Ponto reverso, da Andross Editora, e organizou a Antologia Comemorativa dos quinze anos da Casa do Escritor Pinhalense Edgard Cavalheiro. É colunista da Revista Rosa News. Mantém o blog overshockblog.com.br.

Contato com o autor: ricardo.sep22@gmail.com

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