[Informativo] O Que Procuro na Literatura

12 fevereiro 2016

Que é que eu procuro na literatura? Que é que me arrasta para este combate interminável e sempre votado ao fracasso? Como é imbecil pensar-se que se escreve para se «ter nome» e as vantagens que nisso vêm. Espera-se decerto sempre fazer melhor, mas só porque sempre se falhou. Assim se sabe também que se vai falhar de novo. Não se escreve para ninguém, o problema decide-se apenas entre nós e nós. Mas há um lugar inatingível e cada nova tentativa é uma tentativa para o alcançar.

O desejo que nos anima é o de fixar, segurar pela palavra o que entrevemos e se nos furta. Julgamos às vezes que o atingimos, mas logo se sabe que não. Miragem perene de uma presença luminosa, de um absoluto de estarmos inundados dessa evidência, encantamento que nos deslumbra no instante e nesse instante se dissolve.

O que me arrasta nesta luta sem fim é o aceno de uma plenitude de ser, a integração perfeita do que sou no milagre que me entreluz, a transfiguração de mim e do mundo no que fulgura e vai morrer. 

Recaído de cada vez no mais baixo, na grossa naturalidade de que sou feito, de nada me vale a experiência conquistada, porque se começa sempre no zero. Então se luta de novo, se pensa que «agora é que é», nos abeiramos com humildade e terror, na esperança irrisória de que tocaremos enfim o lume que nos fascina. E quase se toca e nos queimamos na sua chama, nos transcendemos ao seu limite, no ápice desse máximo que nunca é. Luta absurda e vã, esforço inútil que recolhe apenas as sobras do milagre, nessa intérmina procura se consome a vida inteira. Mas que a ilusão nos iluda e uma vida não chega para a pagar. Que é que eu procuro na literatura? O breve nada que é tudo, o breve fulgor de um Deus que morreu. Ou que nunca existiu. Ou que nunca pôde existir… 

E no entanto - como o esquecer? - toda esta alegria feita de amargura, todo este esforço que te preencheu a vida será em breve um amontoado de papéis apodrecidos, lixeira para venda ao quilo ou para criação de um «posto de trabalho» municipal. Mas não sofras. Foste um momento a reinvenção do Deus que inventaste. 


E «mais vale reinar uma hora do que servir toda a vida». Disse-o uma senhora histórica que andava nos livros da instrução primária, ou seja, primeira. E a História é ainda a «mestra da vida». Vou ser discípulo a sério.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 3'

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