A estreia do escritor Caio Nicolella, com o livro “A Incógnita do Despertar” (Amazon,
2017), mostra como um escritor pode publicar sua primeira obra sem se arriscar e
nem por isso deixar de ter uma boa história. Enquanto alguns apostam todas as
suas fichas no primeiro livro, não temendo as consequências de desagradar seus
leitores, e tantos outros não conseguem mostrar o seu potencial para o mercado
literário nem com muitas tentativas, Nicolella segue pelo caminho oposto,
revelando que ainda tem muito o que explorar.
Ao longo de toda a leitura, muitas
foram as vezes em que me vi lendo uma obra de Joe Hill (o herdeiro de Stephen
King), o que só comprova como toda a história foi muito bem pensada. É bem
verdade que nem tudo é o que realmente aparenta, algo que também acontece nos
livros de Hill, porém essa é uma das grandes virtudes deste suspense
psicológico, em especial se pensarmos — com o perdão do trocadilho — como as incógnitas
apenas mantém a expectativa pelo desfecho de cada nuance do enredo.
Outro ponto a ser destacado é
a construção de todas as personagens, em especial o protagonista Jack — embora
não passe de um estereotipado detetive de filmes americanos. Como estudante de
Psicologia, Nicolella tem todo o conhecimento necessário para se construir uma
personalidade convincente e verossímil, no entanto, mais do que isso, para um
enredo como o seu, precisa também que seu personagem tenha um algo a mais. É aí
que os estereótipos fazem a diferença, não deixando Jack ser só mais um, visto
que o enredo necessitava do
famigerado estilo detetivesco.
Isto é, apenas um protagonista
todo errado, com sérios problemas de relacionamentos e muitas perturbações em
toda a vida, para encarar de frente as aparições de um demônio em seus sonhos
ou buscar solucionar, a todo custo, os mistérios que envolvem a presença de um
assassino em série em sua cidade natal. Digo mais, apenas um protagonista todo
errado para não endoidecer de vez com o que aparenta não passar de insanidade
ou ao se deparar com tantas dúvidas sobre o seu passado, presente e futuro.
Ao explorar como seu
protagonista encara todas essas situações, Caio Nicolella desenvolve muito bem
a evolução que Jack adquire ao aprender ou não com os seus erros. No entanto, o
que realmente vale ressaltar, é como o próprio personagem encara as armadilhas
colocadas por seu psicológico em seu caminho — ou seriam armadilhas colocadas
por seres misteriosos que surgem em
seu caminho? Seres que, por sinal, são a verdadeira cereja do bolo; ou o gelo
do uísque, se assim preferirem.
E o escritor também ganha o
leitor por seu enredo e pela escrita ágil, indo direto ao ponto em cada uma de
suas cenas, como de fato exige o bom e velho suspense psicológico. Sem dar
chances para que nada seja desvendado antes da hora, e surpreendendo no final,
Nicolella estreia com os pés no chão, como supracitado, como se tudo (inclusive
a sua carreira) tivesse sido preparado minuciosamente. No geral, uma ótima
forma de conquistar leitores para os seus futuros livros.
A
Incógnita do Despertar
Autor(a):
Caio Nicolella
Editora:
Publicação independente
Número
de páginas: 363
Sinopse:
O jogo começa agora: O jogo
de gato e rato… Jack é um detetive que
acredita estar preso em um ciclo constante, no qual revive sua vida após
encontrar a derradeira morte em uma estrada. O responsável, acredita ele,
encontra-se na escuridão e se revela na personalidade de um demônio em seus
sonhos. Além de estar em uma sequência de acontecimentos, ele tem de lidar com
suas escolhas em relação a um assassino em série que ronda Lost Grove, sua
cidade natal. Os mistérios que pairam sobre
os eventos de sua vida vão se interligando quando uma figura inusitada insiste
em aparecer em seus devaneios, revelando novas inconsistências no que ele
acreditava ser verdade. O seu passado cria várias sombras de dúvidas que mais
tarde irão lhe mostrar uma terrível verdade. Até que ponto poderemos acreditar
no que ele relata? A incógnita de seu despertar só obterá sua resposta quando
ele estiver pronto. Você está?
* Ricardo Biazotto é escritor e roteirista.