O Diário do Leitor: desafio doze clássicos para 2018
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29/01/2018

[Resenha] Macunaíma

A resenha de Macunaíma já saiu aqui no blog logo quando o criamos, em 2011. Eu vou deixar aqui a mesma resenha, pois ela transmite tudo o que penso sobre a obra. Espero que apreciem. 


Macunaíma vem de “Maku”, que significa “mau” e o sufixo “Ima”, “grande”. Assim, Macunaíma significaria “O grande mau”.

Para que houvesse a produção do livro, Mário de Andrade realizou um árduo trabalho de pesquisa que, frequentemente, mistura elementos de diversas regiões do país, ao buscar desregionalizar sua obra, concebendo literariamente o Brasil como entidade homogênea. O autor também inverte relatos de cronistas quinhentistas, como Pero Vaz de Caminha no capítulo “A Carta pras Icamiabas”.

Há entre os personagens certa dualidade, múltiplas personalidades.

A obra é constituída por uma rapsódia, que são narrativas folclóricas contadas através de cantos. Há também uma ligação entre A Demanda do Santo Graal e Macunaíma, que é a busca do objeto sagrado (em Macunaíma, há a busca pela Muiraquitã).

O principal personagem do livro e que dá nome ao mesmo é regido pelo principio do prazer, e não do dever, remetendo-nos à Freud.


É um clássico da literatura brasileira e deve ser lido, nem que para fins meramente pessoais.


Macunaíma
Autora: Mário de Andrade
Editora: Novo Século
Número de páginas: 184
Onde comprá-lo: Box Amazon




Sinopse: Macunaíma é considerado um indianismo moderno, escrita sob a ótica cômica. Critica o Romantismo, utiliza os mitos indígenas, as lendas, provérbios do povo brasileiro e registra alguns aspectos do folclore do país, até então pouco conhecidos (rapsódia). O livro possui estrutura inovadora, sem seguir uma ordem cronológica e espacial. É uma obra surrealista, na qual se encontram aspectos ilógicos, fantasiosos e lendas. Adota como protagonista um personagem fantasioso e complexo, o qual se misturam os mais diversos traços de nossa formação cultural.

28/01/2018

[Resenha] Amar, verbo intransitivo


Gente, como vocês puderam ver ao longo dessas leituras dos livros do Box Mário de Andrade, tive diversos altos e baixos, gostando muito de uns, e pouco de outros. Amar, verbo intransitivo é um dos livros mais conhecidos e polêmicos do autor, justamente por tratar de assuntos ligados ao cotidiano e que quase sempre eram esquecidos ou não se tornavam alvo das rodinhas de conversa e fofoca. 

Fräulein vai trabalhar em uma casa no bairro de Higienópolis, um dos bairros mais ricos de São Paulo (ainda hoje). E sim, ela é uma prostituta. Aí que o negócio se torna interessante. Pra que levar uma mulher assim para casa? Naquela época era muito comum que os pais levassem seus filhos a lugares específicos, afim de que eles iniciassem com suas vidas sexuais. E tudo tinha um motivo: não pegar alguma doença na rua, como a sífilis.

Então, além de ser uma governanta e cuidar de assuntos que dizem respeito, como educar as crianças segundo o modelo alemão, ela serviria como amante profissional. Mas é claro que as coisas fogem do controle das mãos de Fräulein e a mulher já madura acaba caindo nos encantos do filho mais velho do casal, Carlos, nutrindo um amor totalmente desconhecido até então.

Nós temos aqui um enredo baseado numa constante intromissão do narrador, considerado uma personagem da história, junto com a alemã Fräulein. Mas o que mais me deixou desgostosa durante a leitura foi o excesso de palavras e expressões rebuscadas. Tudo bem que o livro foi escrito durante o Modernismo, período de mudanças e de quebra de paradigmas, mas acho que justamente por isso a linguagem deveria ser de mais fácil acesso.

Uma vantagem é que, diferente dos livros anteriores aqui resenhados, esse segue o mesmo padrão de Macunaíma, ou seja, é escrito em forma de prosa, com continuidade do início ao fim.


Em suma, a proposta é muito envolvente e diferenciada, mas infelizmente esses percalços durante a leitura me levaram a dar uma nota mediana.


Amar, verbo intransitivo
Autor: Mário de Andrade
Editora: Novo Século
Número de páginas: 160
Onde comprá-lo: Box Amazon



Sinopse: Publicado em 1927, Amar, verbo intransitivo pertence à chamada primeira fase do Modernismo Brasileiro. Recebeu várias críticas por se tratar de um assunto polêmico que era vivido pela sociedade em geral, mas não era discutido abertamente. Repleta de críticas sociais e comportamentais, a obra narra o envolvimento de um jovem de alta posição social com uma alemã mais velha contratada pela família, chocando a sociedade e transformando Mário de Andrade num alvo de críticas. Anos depois e até os dias atuais, o livro é lido tanto pela sua qualidade como pela sua irreverência e pioneirismo.

24/01/2018

[Resenha] Contos novos


Totalmente diferente de Pauliceia desvairada, encontramos em Contos novos o que o título nos sugere: contos (ah vá, Pamela, é mesmo?). E confesso que agora me sentia segura em ler algo que eu já estou acostumada, pois trabalho com diversos textos do gênero em sala de aula.

Desta vez não contamos com uma introdução, pois como temos explicado na sinopse, este é um livro publicado postumamente, depois do falecimento de Mário de Andrade. Ainda acho que caberia ao editor explicar um pouco mais do processo criativo aqui encontrado, bem como esse detalhe que é apenas citado rapidamente na sinopse, convenhamos.

De cara somos apresentados ao melhor conto, em minha singela opinião. Vestida de Preto conta a história amorosa de Juca. Tudo isso começou com uma paixonite que durou dos seus três aos cinco anos, sendo substituído por um romance que abalou suas estruturas. Maria era uma prima distante, mas que frequentava sua casa com certa regularidade. Até os nove anos, ele achava que ela era apaixonada por ele. Ledo engano.

O conto seguinte é O Ladrão e confesso que foi um dos mais confusos assim que terminei a primeira vez de lê-lo. Claro que precisei de uma segunda leitura, muito mais atenta, para tentar desvendar o que Mário de Andrade quisera dispor ali nas pouco mais de cinco folhas. Depois de todos os moradores de uma vila acordarem com os gritos de “pega, ladrão!” e mesmo sem tê-lo visto, a madrugada toma um rumo totalmente diferente, pois estão todos em pânico frente o perigo iminente. No final das contas, ninguém sabe dizer se houve realmente um ladrão

À continuidade nos deparamos com um Primeiro de Maio totalmente diferente. Enquanto a maior parte da cidade se dá um dia de folga, por ser um feriado para os trabalhadores do país, o 35 teria de trabalhar, carregando as malas dos que precisassem na Estação da Luz. Mas é claro que ele não desperdiçaria um dia tão belo enfurnado naquele lugar e decide, mais que de pronto, ir atrás de algum movimento, algo diferente, que estivesse ligado ao feriado tão importante. Não é isso o que encontra pelo caminho.

Atrás da Catedral de Ruão foi um dos contos que mais me desagradou pelo simples fato de termos diversas expressões em francês, quase que em todas as páginas, tendo que recorrer às notas de rodapé toda hora para entender o que as personagens Mademoiselle, uma francesa virgem de quarenta e três anos e suas duas alunas, Alba e Lúcia, respectivamente com quinze e dezesseis anos. Elas usam o francês para falar sobre sexo com enorme frequência. Um dia, elas contam uma história para a professora, de que havia um homem atrás da catedral. Foi o que bastou para o fogo da mestra acender a ponto de querer estar ali todos os dias, em busca do que ela deseja ansiosamente.

Cochonneries inutiles.


Chegamos à metade do livro e o conto é O Poço, que vai nos mostrar a história de um fazendeiro e criador de abelhas africanas chamado Joaquim Prestes. Ele é rico, tem setenta e cinco anos e decide, um belo dia, fazer um poço em sua propriedade, tudo para guardar mais dinheiro e não colocar água encanada, logo perto do pesqueiro, que tinha em abundância. Mesmo com o frio que fazia no lugar, ele queria que os homens que contratara trabalhassem, incentivando-os jogando uma caneta e exigindo que a tirassem de lá. Esse foi o conto que mais me deu raiva, pelo desfecho final que temos. Como o ser humano consegue ser filho da boa mãe, não é mesmo?

Em O peru de Natal encontramos Juca (não sabemos se é o mesmo lá do primeiro conto) querendo comemorar o Natal, mesmo depois de cinco meses da morte de seu pai e sua mãe achando que isso era errado. Claro que a lábia dele foi maior e convenceu toda a família. Era coisa pouca. Só um peru, farofas, arroz e uma cerveja. Podemos observar aqui o quanto ele presa o bem-estar de sua mãe, que nunca comera de forma digna algo do Natal, pois ela se contentava com os restos no dia seguinte.

Juca tem treze anos quando conhece Frederico Paciência, o típico garoto pelo qual todas as meninas caem matando. Mas depois de virarem amigos inseparáveis, Frederico o beija com uma vontade nunca antes vista. Mesmo assustado, ele confessa que os dois se querem muito bem um ao outro, algo desconfortável, mas que era verdade. Claro que o lado machista dele agradeceu quando seu amigo foi para o Rio de Janeiro cursar medicina. Aos poucos eles se afastam. O que causa grande alívio a Juca, que no momento, adora a companhia das moças.

Estamos agora na reta final. Nélson estava tomando uma cerveja no bar. Os que estavam ao seu redor comentavam sobre sua vida e porque ele tem o braço repuxado, como se tivesse magicamente perdido parte da pele que o cobria. Claro que ele ficou de saco cheio e se retirou para casa. Mas ao entrar, nas paredes, encontra notícias de jornal na parede. O que serão?

E finalmente chegamos ao fim. Tempo de camisolinha mostra Juca (novamente esse nome) relembrando os tempos de criança, vestindo uma camisolinha aos três anos e com cabelos grandes, devido a uma promessa feita por sua mãe. Ele se vai para Santos com toda a família. Aí acontece o ritual de amadurecimento. Seus cabelos são cortados, mas ele se recusa a reconhecer que está crescendo. Aos poucos, ele próprio vai descobrindo meios para afastar a insegurança e se deixa crescer.

Não tenho como relatar em muitas palavras o que acontecem nos contos sem acabar deixando escapar alguns spoilers (juro que tentei, mas pode ter acontecido, haha). Mas em suma, acabei gostando mais de Contos novos do que imaginava. Podemos observar um amadurecimento nos escritos (mais em alguns do que em outros) de Mário de Andrade e a forma com a qual eles são construídos é muito boa. Com exceção do quarto conto, todos os demais foram bons.


A diagramação segue simples nesse segundo volume do Box. A capa teve uma mudança de cores, com predominância do azul. Em suma, vamos ver o que Amar, verbo intransitivo me reserva.



Contos novos
Autor: Mário de Andrade
Editora: Novo Século
Número de páginas: 144
Onde comprá-lo: Box Amazon




Sinopse: Contos novos foi publicado postumamente, em 1947, e narra relatos da maturidade artística de Mário de Andrade. Trata-se de uma coletânea de textos escritos pelo autor ao longo de sua vida, desde os primeiros momentos do Modernismo, passando pelo gênero nacionalista e pela interpretação crítica, em perder suas características artísticas e estéticas. 

21/01/2018

[Resenha] Pauliceia desvairada


"Toda canção de liberdade vem do cárcere."

Esse é o primeiro livro do Box Mário de Andrade que eu resolvi ler para o Desafio de 12 livros clássicos para 2018 (você pode conhecer mais sobre ele aqui) e comecei justamente por ele, pois ele vai nos trazer diversos poemas escritos pelo Mário durante a época mais conhecida como Semana de Arte Moderna de 22, movimento que trouxe a modernidade para o Brasil, resgatando valores nacionais e exaltando nossa própria produção literária.

Logo no início de Pauliceia desvairada encontramos um prefácio que ocupa quase metade do livro... É claro que eu exagerei, mas chega a quase isso. Nele, podemos perceber o quão rápido era o raciocínio de Mário, porque a cada hora ele tocava num assunto diferente. Mas o que nós podemos observar o tempo todo é que ele diz estar atrasado quando o assunto é modernidade, mesmo participando ativamente e diretamente na Semana de 22.

E aí quando começamos efetivamente a leitura dos poemas, vemos que todos tem uma conotação moderna. Utilizando principalmente São Paulo como pano de fundo, a cidade moderna representa a libertação das pessoas, ao mesmo tempo que as reduz ao seu isolamento, em busca de diversas coisas antes não tão essenciais à vida, como o trabalho e o dinheiro, sendo estes sinônimos de felicidade.

"Escrever arte moderna não significa jamais para mim representar a vida atual no qe tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto."

Claro que ao mesmo tempo que nos deparamos com todas essas características, passamos a entender menos o contexto em que as palavras são colocadas. Em alguns poemas, parecem que foram apenas jogadas ao vento, dispostas de forma puramente estética, mas foi esse ponto que ele quis mostrar ao leitor: a luta de sua procura por novos caminhos na literatura.

Fica visível que esse livro foi o primeiro de uma série de quebra de paradigmas na Literatura Brasileira, mas não consegui me prender com a facilidade de sempre. Mesmo não gostando de poesia do jeito que talvez devesse (pensando pelo ponto de vista de ser professora de língua portuguesa né, rs), se eu entendo seu contexto de forma clara, até que consigo gostar da leitura. Aqui sabemos a proposta, mas não as circunstâncias as quais serviram como base para sua escrita.

A edição que a Novo Século fez com os livros do Box está perfeita. Confesso que eu comprei muito mais pelo visual e preço do que pela vontade de ler, mas isso veio assim que ele chegou às minhas mãos. A capa é simples, mas muito bonita, com tons de amarelo, vermelho e azul, sendo a primeira predominante. O livro foi impresso em papel pólen naquela textura de “jornal” e tem fonte em tamanho ótimo para a leitura. É uma edição que vale muitíssimo a pena de se ter! Lembrando que o texto original foi adaptado ao Novo Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009. E o grande diferencial e que a maioria das editoras ainda não adotou: tem um marca páginas de cada livro! Ouçam meu clamor, por favor!



Pauliceia desvairada
Autor: Mário de Andrade
Editora: Novo Século
Número de Páginas: 96
Onde comprá-lo: Box Amazon





Sinopse: Pauliceia desvairada é um dos livros de poemas de Mário de Andrade, escrito em 1922, no qual ele explora conquistas do modernismo brasileiro e publica seu famoso “Ode ao Burguês”, o mais célebre poema dos primórdios do Modernismo, que teve início com a Semana de Arte Moderna, evento ocorrido em 1922 que reformulou a literatura e as artes visuais no Brasil.


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